segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Uma aventura de Felícia, Joel e Piuí


(Zezinho Mutarelli e Gilles Eduar)

Tudo estava indo de mal a pior. O vento forte havia afastado Felícia, Joel e Piuí para longe da costa.
-           Felícia - suspirou Joel, o jaburu - acho que estamos perdidos...
-           Coragem, Joel – suplicou Piuí.
-           É... nunca vi tanta água assim – lamentou  Felícia.
Parecia que a viagem de volta ao mundo que eles haviam planejado chegara ao fim.
-           Olhem ali! – gritou Piuí – Uma ilha!!!
-           Ainda bem, estamos salvos – respondeu Joel com alívio.
-           Que estranho – disse Felícia – esta ilha não estava no mapa. Vamos até lá.
-           Assim que chegaram a praia, foram avistados pelos guardas e levados até o rei.
Os três amigos foram muito bem acolhidos pelo rei em pessoa.
-          Nunca recebemos visitas por aqui, sejam muito bem-vindos à ilha Sem-Tom – disse ele.
No seu carro de ouro, todo orgulhoso, o rei mostrava sua cidade com telhados de prata e paredes cravejadas de pedras preciosas.
-           Hoje a noite teremos uma grande festa em homenagem a vocês – disse o rei.
Já havia muita gente sentada quando Felícia e seus amigos entratram na grande sala do castelo.
Na hora ouviu-se um burburinho generalizado, mas foi só. Todo mundo continuou sentadinho onde estava.
Felícia, Joel e Piuí foram acomodados em belas poltronas vermelhas.
Depois de uma hora de chá de cadeira e salgadinhos, Piuí cochichou:
-           Que festa é essa onde todos ficam sentados e quietos?
-           Pois é, mas veja quanto luxo, vestidos lindos, jóias exuberantes – respondeu Joel.
-           Mas de que adianta tudo isso se não acontece nada? – perguntou Felícia.
Derrepente, o rei e a rainha levantaram-se solenemente e decretaram o fim do evento. O rei foi se despedir de seus convidados de honra.
-           Gostaram da festa? Perguntou.
Os três amigos acharam tudo estranho, mas muito educado, Joel respondeu:
-           Adoramos!!!
-           Que festa? Perguntou Piuí.
-           É – disse Felícia – nunca vi nada mais chato, uma festa sem música. Aliás, já reparei que aqui na rádio desta ilha não toca nada, só fica o locutor falando que a ilha está cada vez mais rica, que todos estão cada vez mais ricos. Quer saber de uma coisa?! Eu acho isso tudo uma pobreza!
O rei ficou nervoso e ofendido. A rainha achou isso um insulto. Assim, mandaram prender os três.
-          Pronto! Que confusão – suspirou Joel.
-          É, tudo isso porque não tinha música na festa – disse Piuí.
-          Você tem razão, Piuí. Um pouco de música não faria mal ao coração desta família real – afirmou Felícia.
Felícia começou a cantar músicas, bem alto. Piuí acompanhou. Com um pedaço de pau batia nas grades de ouro da cadeia. Joel, sentadinho, apenas suspirava.
Logo chegou a família real inteira.
-          Que barulheira é essa?!
-          Música, seu rei – respondeu Felícia.
-          Pra quê? – perguntou ele irritado.
-          Pra ser feliz.
E Felícia, de novo, começou a cantar. Cantou: ‘atirei o pau no gato’, cai, cai balão’, ‘o cravo brigou com a rosa’ e outras... O rei, fazendo uma cara de quem não entendia, murmurou:
-          Hum... músicas... mas são todas iguais assim? Perguntou.
-          Mais ou menos majestade – disse Joel aproximando-se da grade. Com uma voz apenas e um pau em grade de cadeia é tudo que conseguimos fazer, mas essas músicas são pequenos tesouros...
-          Ora, eu sei o que é tesouro, essas músicas não se parecem nada com isso – resmungou o rei.
-          Bem, seu rei – disse Felícia – cada música que cantei aqui, acompanhada de instrumentos musicais e com ritmos diferentes, faria Vossa Majestade dançar e traria muito mais alegria para as festas da ilha.
-          Como? Arrrgh! Disse o rei bastante nervoso.
-          Deixe-me explicar. Excelentíssima Majestade – disse Joel, afastando Felícia e Piuí das grades com sua grande asa. O que Felícia quis dizer é que o ritmo e a harmonia são os fundamentos da música. Cada povo espalhado pela terra tem sua tradição musical. Seus instrumentos variados enriquecem essa tradição conferindo a cada música uma sonoridade diferente, especial, muito rica.
-          Muito rica?! – interrompeu a rainha.
-          Sim, como cada pedra que, com sua cor e seu brilho particular, traz ao seu colar, ó majestosa rainha, sua beleza única. Argumentou Joel.
-          Que ousadia, comparar as nossas jóias tão belas com músicas!  Esbravejou a rainha.
-          E querer, com essas melodias, me fazer sorrir ou mesmo dançar... é demais! Acrescentou o rei. Adeus!
-          Papai! Quero o macaquinho na minha gaiola de platina. Disse finalizando a princezinha.
-          Puxa, que fria! Suspirou Felícia.
-          É, e levaram o Piuí. Acho que vou chorar...
-          Não, Joel, pare por favor! Implorou Felícia. Pássaro não chora, pássaro voa e o rei se esqueceu disso. Nós vamos é fugir pela janela da prisão.
-          Mas e o Piuí? Perguntou Joel.
-          Não vamos abandona-lo. Voltamos, Joel. Voltaremos e mostraremos a todos desta ilha que as músicas que cantei têm um poder que eles não podem imaginar. Começaremos visitando nossos amigos de New Orleans. O blues é a alma da música.
-          É minha alma também! Soluçou Joel.
-          Coragem – disse Felícia. Esta é a única maneira de salvarmos Piuí.
Assim os dois amigos voaram pela janela em busca de ritmos musicais do mundo inteiro.
Depois de dois dias, Felícia e Joel encontraramseus amigos descendo o rio Mississipi, no sul dos estados unidos. Lá ensaiam ‘Atirei o Pau no Gato’ em ritmo de blues. (Luiz Melodia)
No interior do Brasil todo mundo conhece ‘Sapo Jururu’. Felícia e Joel permanecem quietos. O som da viola em ritmo sertanejo acompanha o cair da tarde. (Pena Branca e Xavantinho)
A banda de jazz atravassa as ruas de NY. Felícia e Joel aproveitam a carona para ensaiar ‘Cai, Cai Balão’ num charmoso swingado de metais. (Banda Mantiqueira)
O pessoal da bossa nova resolveu viajar de avião para tocar seu violão. Rio de Janeiro é uma bela cidade, ‘Capelinha de Melão’ uma bela canção. (Carlos Lyra)
Descendo os morros do Brasil, a triste música. ‘O Cravo e a Rosa’ torna-se feliz ao ritmo do samba. Felícia e Joel dançam ao som do cavaquinho, cuíca e tamborim. (Negritude Junior)
No sertão do nordeste brasileiro, os amigos de felícia e Joel tocam ‘Sabiá lá na Gaiola’. Que forró! (Oswaldinho do Arcodeon)
Em frente a uma discoteca, nos EUA, o pessoal se diverte dançando ‘O Sapo não Lava o Pé’ em ritmo de funk. (Sandra de Sá)
Na Inglaterra, com suas guitarras magnéticas, os amigos de Felícia e Joel tomam conta de Londres cantando o rock ‘Fui no Tororó’ (Ira)
No sul da África, os animais entram em harmonia com a música ‘Pai Francisco’ em ritmo afro. (Skowa)
Viajando de caravana com os ciganos no sul da Espanha, transformam ‘Ciranda, Cirandinha’ em flamenco, ao som das palmas e castanholas. (Fernando de La Rua)
Na Itália, Felícia e Joel se divertem no palco da cantora lírica. Acompanhada por violinos, violas e violoncelos a música ‘Peixe Vivo’ vira ópera, vejam só! (Rosana Lamosa e Fernando Portinari)
Na Jamaica, o repicar dos timbales anunciam o balanço do reggae. Que turma bacana essa! Ensaiando ‘Boi da Cara Preta’. Suas bicicletaas parecem dançar. (Tribo de Jah)
Felíca e Joel cantam ‘Se essa Rua Fosse Minha’ com seus amigos cubanos. Num velho chevrolet, trompetes alegram Havana em ritmo de salsa. (Havana Brasil)
Atravessar o mercado árabe é uma festa em ritmo dundar! A música ‘Pirulito que Bate-Bate’ contagia todo mundo. (André Abujamra)
Subindo e descendo as ladeiras de Lisboa em Portugal o bonde balança sobre os trilhos. Ao ritmo festeiro do vira ensaia ‘Escravos de Jó’. (Roberto Leal)
Na Argentina, na balsa que os levará de volta à ilha, Joel e Felícia ensaiam com seus amigos ‘Marcha Soldado’ em ritmo de tango. (Pocho)
Vinte e oito dias após a fuga, chegava à ilha a balsa onde Joel e Felícia conseguiram reunir todos os seus amigos músicos.
Todos da ilha acompanharam pelas ruas da cidade o alegre desfile. Na praça principal improvissou-se um megashow inesquecível. Uma grande festa de verdade.
Entre beijos, choros e abraços, Felícia e Joel comemoraram o reencontro com Piuí. Foi quando chegou a família real, descalça e molhadinha de tanto dançar...
-          Que coisa mágica, – disse o rei – muito obrigado. A ilha era rica, mas vocês trouxeram a felicidade.
-          Olhe, deste momento lindo conseguimos gravar um disco – disse a princesa.
-          Como poderemos nos desculpar? Perguntou a rainha.
-          Como? Disse Felícia. Ponha o disco para tocar e vamos todos juntos de novo dançar!

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